A vida é uma honrada professora dos ensinamentos empíricos; o resultado são experiências memoráveis. Em muitos casos, são lições aprendidos; já em outros, nem tanto e noutros ainda, parece não serem percebidos pelo alunado. A ideia que a "vida ensina" sempre foi declarada pelo meu estimado pai. Para ele, quando os filhos negavam-se a aprender com os pais ou mesmo ouvi-los, era delegada à vida o ensinamento na prática.
Isto fazia com que eu, ora desafiasse , ora obedecesse a meus pais. Lembro de uma conversa com ele, no qual me disse que eu "não deveria me sentir menos ou mais que ninguém, mas que eu deveria ser sempre eu mesma."
Aquelas palavras calaram fundo na minha alma de criança e desde então, procuro aplicar o preceito por ele ensinado. Um outro exemplo de ensinamento familiar foi a fé em Deus, na qual, até hoje acompanha meus passos e de certa forma confere a eles, mais firmeza para enfrentar os desafios da vida.
Tenho fé no Deus, no qual Jesus disse ao diabo no deserto quando este mostrou-lhe todos os reinos do mundo e sua riqueza, e lhe disse: "Eu te darei tudo isso, se caíres de joelhos para me adorar". Então falou Jesus: " Vai embora, Satanás, pois está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele prestarás culto." ( Mt 4:8)
Fé e conversão, apesar de distintas na essência, possuem um nexo entre elas e com o cuidado de si, visto que todos eles referem-se ao aperfeiçoamento do espírito. Existe uma relação direta entre a fé e a conversão. Ter fé é crer, é conhecer, é esperançar, é acreditar em algo ou em alguém. A fé não precisa estar vinculada à instituições religiosas para tornar-se forte, pois o que nutre a fé é a ação e a prática.
A conversão é o exercício da fé. Ela se caracteriza teoricamente como a expressão prática da fé. Converter é o mesmo que voltar para si. Foucault disse: " A noção de conversão é também uma noção filosófica importante (...)"
Um exemplo ilustrativo da fé e conversão é o do fariseu e do publicano, Jesus contou através da parábola:" Dois homens subiram ao templo para orar. Um era fariseu o outro, publicano. O fariseu, de pé, orava assim em seu íntimo: Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros, ladrões, desonestos. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de toda a minha renda. O publicano porém, ficou a distância e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu, mas batia no peito, dizendo: Meu Deus, tem compaixão de mim, que sou pecador! Eu vos digo, este último voltou para casa justificado, mas o outro não."
Não obstante a fé, o fariseu estava convencido da sua conversão. Já o publicano não tinha o convencimento delas, apesar de mostrá-la através do seu ato de humildade.
Assim como o publicano, algumas pessoas também julgam-se "melhores que outras"; "salvas" por considerarem que estão no suposto "caminho da obediência"; julgam-se "mais santas", "mais merecedoras" do que outras pessoas. Estão convencidas da fé e conversão.
Os dogmas são frequentemente ensinados nas instituições religiosas, levando o crente a acreditar na falsa ideia de conversão. Contudo, isto não tem nenhuma relação com ela, mas pode, no entanto, ser comparada à ideia de adesão ao dogma religioso.
A conversão não é assunto novo, segundo Foucault (2010, p.154) o tema já está desenvolvido significativamente em Platão sob a forma de "epistrophé platônica". De modo esquemático ela consiste, primeiramente, em desviar-se das aparências. Em segundo momento, consiste em fazer o retorno a si constatando sua própria ignorância e decidindo-se, justamente, a ter cuidado de si e a ocupar-se consigo. No terceiro momento, a partir desse retorno a si que nos conduzirá à reminiscência, retornar à pátria, a das essências, da verdade e do ser (a pátria ontológica). São os elementos da epistrophé platônica.
Para Foucault, (2010, p. 6) Sócrates é o homem do cuidado de si e assim permanecerá. Sócrates é sempre, essencial e fundamentalmente, aquele que interpelava os jovens na rua e lhes dizia: É preciso que cuideis de vós mesmos.
Considero importante destacar que a ideia e o conceito sobre conversão e sobre o cuidado de si foram desenvolvidos pelos filósofos da Antiguidade, muito antes do estabelecimento do Cristianismo, apesar de ser modificada ao longo do tempo.
Pode parecer divergente a ideia do cuidado de si, bem como a conversão, pois ambas transmitem uma convicção de egoísmo, de egocentrismo ao voltar-se para si, Foucault (2010, p. 10) explica como soam aos nossos ouvidos, essas injunções a exaltar-se, ao pregar culto de si, a voltar-se sobre si mesmo, a prestar serviço a si mesmo? Soam como uma vontade de ruptura ética, uma espécie de desafio, de bravata, de um estádio estético e individual intransponível. Ou então soam aos nossos ouvidos como a expressão um pouco melancólica e triste de uma volta do indivíduo sobre si, incapaz de sustentar (...) uma moral coletiva (a da cidade por exemplo) e que em face do deslocamento da moral coletiva, nada mais então teria senão ocupar-se consigo.
A ideia de ocupar-se consigo mesmo, voltar-se para si e cuidar de si foi ratificada por Jesus quando ensinou seus discípulos: "Não julgueis e não sereis julgados. Pois com o mesmo julgamento com que julgardes os outros sereis julgados; e a mesma medida que usardes para os outros servirá para vós. Por que observas o cisco no olho do teu irmão e não reparas na trave que está no teu próprio olho? ou como podes dizer a teu irmão: "Deixa-me tirar o cisco do teu olho, quando tu mesmo tens uma trave no teu? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu próprio olho, e então enxergarás bem para tirar o cisco do olho do teu irmão." (Mateus 7)
Aquelas palavras calaram fundo na minha alma de criança e desde então, procuro aplicar o preceito por ele ensinado. Um outro exemplo de ensinamento familiar foi a fé em Deus, na qual, até hoje acompanha meus passos e de certa forma confere a eles, mais firmeza para enfrentar os desafios da vida.
Tenho fé no Deus, no qual Jesus disse ao diabo no deserto quando este mostrou-lhe todos os reinos do mundo e sua riqueza, e lhe disse: "Eu te darei tudo isso, se caíres de joelhos para me adorar". Então falou Jesus: " Vai embora, Satanás, pois está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele prestarás culto." ( Mt 4:8)
Fé e conversão, apesar de distintas na essência, possuem um nexo entre elas e com o cuidado de si, visto que todos eles referem-se ao aperfeiçoamento do espírito. Existe uma relação direta entre a fé e a conversão. Ter fé é crer, é conhecer, é esperançar, é acreditar em algo ou em alguém. A fé não precisa estar vinculada à instituições religiosas para tornar-se forte, pois o que nutre a fé é a ação e a prática.
A conversão é o exercício da fé. Ela se caracteriza teoricamente como a expressão prática da fé. Converter é o mesmo que voltar para si. Foucault disse: " A noção de conversão é também uma noção filosófica importante (...)"
Um exemplo ilustrativo da fé e conversão é o do fariseu e do publicano, Jesus contou através da parábola:" Dois homens subiram ao templo para orar. Um era fariseu o outro, publicano. O fariseu, de pé, orava assim em seu íntimo: Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros, ladrões, desonestos. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de toda a minha renda. O publicano porém, ficou a distância e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu, mas batia no peito, dizendo: Meu Deus, tem compaixão de mim, que sou pecador! Eu vos digo, este último voltou para casa justificado, mas o outro não."

Assim como o publicano, algumas pessoas também julgam-se "melhores que outras"; "salvas" por considerarem que estão no suposto "caminho da obediência"; julgam-se "mais santas", "mais merecedoras" do que outras pessoas. Estão convencidas da fé e conversão.
Os dogmas são frequentemente ensinados nas instituições religiosas, levando o crente a acreditar na falsa ideia de conversão. Contudo, isto não tem nenhuma relação com ela, mas pode, no entanto, ser comparada à ideia de adesão ao dogma religioso.
A conversão não é assunto novo, segundo Foucault (2010, p.154) o tema já está desenvolvido significativamente em Platão sob a forma de "epistrophé platônica". De modo esquemático ela consiste, primeiramente, em desviar-se das aparências. Em segundo momento, consiste em fazer o retorno a si constatando sua própria ignorância e decidindo-se, justamente, a ter cuidado de si e a ocupar-se consigo. No terceiro momento, a partir desse retorno a si que nos conduzirá à reminiscência, retornar à pátria, a das essências, da verdade e do ser (a pátria ontológica). São os elementos da epistrophé platônica.
Para Foucault, (2010, p. 6) Sócrates é o homem do cuidado de si e assim permanecerá. Sócrates é sempre, essencial e fundamentalmente, aquele que interpelava os jovens na rua e lhes dizia: É preciso que cuideis de vós mesmos.
Considero importante destacar que a ideia e o conceito sobre conversão e sobre o cuidado de si foram desenvolvidos pelos filósofos da Antiguidade, muito antes do estabelecimento do Cristianismo, apesar de ser modificada ao longo do tempo.
Pode parecer divergente a ideia do cuidado de si, bem como a conversão, pois ambas transmitem uma convicção de egoísmo, de egocentrismo ao voltar-se para si, Foucault (2010, p. 10) explica como soam aos nossos ouvidos, essas injunções a exaltar-se, ao pregar culto de si, a voltar-se sobre si mesmo, a prestar serviço a si mesmo? Soam como uma vontade de ruptura ética, uma espécie de desafio, de bravata, de um estádio estético e individual intransponível. Ou então soam aos nossos ouvidos como a expressão um pouco melancólica e triste de uma volta do indivíduo sobre si, incapaz de sustentar (...) uma moral coletiva (a da cidade por exemplo) e que em face do deslocamento da moral coletiva, nada mais então teria senão ocupar-se consigo.
A ideia de ocupar-se consigo mesmo, voltar-se para si e cuidar de si foi ratificada por Jesus quando ensinou seus discípulos: "Não julgueis e não sereis julgados. Pois com o mesmo julgamento com que julgardes os outros sereis julgados; e a mesma medida que usardes para os outros servirá para vós. Por que observas o cisco no olho do teu irmão e não reparas na trave que está no teu próprio olho? ou como podes dizer a teu irmão: "Deixa-me tirar o cisco do teu olho, quando tu mesmo tens uma trave no teu? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu próprio olho, e então enxergarás bem para tirar o cisco do olho do teu irmão." (Mateus 7)
Portanto, o caminho para uma existência íntegra e significativa passa necessariamente por um retorno a si mesmo. A verdadeira conversão seja religiosa, moral ou existencial não nasce da autojustificação ou do julgamento alheio, mas da humilde e corajosa decisão de olhar para si mesmo. Assim, conclui-se que fé, conversão e cuidado de si, são fios de um mesmo tecido e que nos convidam a uma jornada interior contínua.
por Lisiane Vieira Ortiz Martinez
Referências
Bíblia Sagrada, 2012 - CNBB.
Foucault, Michel: A Hermenêutica do Sujeito, Curso de 1982 no Collège de France, 2010.
por Lisiane Vieira Ortiz Martinez
Referências
Bíblia Sagrada, 2012 - CNBB.
Foucault, Michel: A Hermenêutica do Sujeito, Curso de 1982 no Collège de France, 2010.