Você acha mais fácil agir com a emoção ou com a razão?
Qual é a causa de uma alegre determinação que se apodera de nós diante da ação? Eis a pergunta que Nietzsche lança às profundezas da reflexão, em Aurora. Longe de ser um mero estado emocional, essa alegria da pré-ação revela-se um fenômeno filosófico radical porque desafia as certezas estabelecidas e os dogmas sociais.
Nietzsche explora um mecanismo psicológico: a vitória da disposição de espírito movida pelo emocional sobre a razão ou, em outras palavras, a primazia do impulso sobre a razão . Ele diz que "desde os primórdios, os homens não escolheram o caminho mais lógico, mas aquele que inflamava sua coragem e esperança." Nietzsche, 2013, pág. 57. Como essa tendência era explorada por líderes astutos para manipular as massas?
Ele destaca que o estado emocional pesa mais que a lógica na tomada de decisões. Um projeto que inspire entusiasmo, mesmo que incoerente prevalece sobre a razão, porque é interpretada como sinal divino, como um sussurro:
"A boa disposição pesava na balança como um argumento mais decisivo do que a razão: porque a disposição de espírito era interpretada de forma supersticiosa, como o efeito de um deus que promete o êxito e que quer assim levar a falar, à sua razão, a linguagem da sabedoria superior." Nietzsche, Aurora, pág. 57, 2013.
Continua Nietzsche: "Ora, considerem as consequências de semelhante preconceito quando homens astutos e sequiosos de poder se serviram dele - quando se servem ainda! "Dispor favoravelmente os espíritos!" - com isso se pode substituir todos os argumentos e vencer todas as objeções!" Nietzsche, Aurora, pág. 57, 2013.
O filósofo alerta para os homens que buscam poder e que exploram essa fraqueza humana. Qual é o perfil desses homens? Geralmente são homens que adotam posições políticas de movimentos extremistas, são líderes autoritários, líderes que demonizam o adversário, que utilizam uma linguagem agressiva e que mobilizam por meio do ódio e do medo. Se conseguirem "manipular favoravelmente os espíritos", criando uma espécie de clima de euforia coletiva e atribuindo o resultado à crença de que Deus o inspirou, nenhum argumento lógico resistirá.
Então, eu fico aqui no meu canto, refletindo sobre o contexto político atual e perguntando: Como diferenciar um líder genuinamente capaz de um manipulador que usa apenas a personalidade ou o carisma como prova de sabedoria? Por outro lado: há argumentos lógicos no campo da crença? Será que, como sugeriria Nietzsche, estamos condenados a preferir líderes que falam à nossa esperança em vez de à nossa razão?
Por Lisiane Vieira Ortiz Martinez
Referência
Nietzsche, Friedrich Wilhelm - Aurora, São Paulo: Escala, 2013.