quarta-feira, 15 de outubro de 2025

O Racismo Oculto em um Verso do Hino Gaúcho: A Virtude Que Escraviza

✍️ Publicação Original:
Facebook | 21 de setembro de 2025, 11:56

Por Lisiane Vieira Ortiz Martinez

Amigas e Amigos, eu sou totalmente a favor da retirada da estrofe do Hino do Rio Grande do Sul que diz: "povo que não tem virtude acaba por ser escravo", pois compreendo que se trata de uma expressão racista e que a linguagem nunca é neutra.Ela sempre tem a intenção de comunicar algo.

Neste caso, reflete o projeto político e social da elite gaúcha da época (os estancieiros, proprietários de escravos, de terras e de gado) , que era a construção da identidade do homem gaúcho como homem livre, honrado, bravo e virtuoso em contraposição implícita direta ao "escravo e sem virtude". Quem eram os escravos? Os negros e os indígenas.

Outro ponto que justifico é que a frase naturaliza a escravidão e também inverte a lógica dela, pois sabemos que a escravidão foi uma violência brutal contra as pessoas negras por anos e anos. O problema é que no imaginário social não é questionado, é a violência do escravizador, a agrura do(a) negro(a) passa ser a suposta "falta de virtude". É como se a escravidão fosse um destino natural para os povos "fracos e inferiores", segundo a visão elitista.

Outro argumento a favor da retirada da frase é que ela serve como justificativa simbólica para a dominação, a elite da época ao se autoproclamar virtuosa, legitima seu lugar de poder e a subjugação daqueles que não pertencem e que não fazem parte do seu grupo.

Por fim, compreendo que a manutenção dessa frase racista representa uma ofensa simbólica contra as pessoas negras, pois ouvir, oficialmente, que a escravidão era consequência da falta de virtude de seu povo é profundamente violento e uma forma de racismo estrutural, manifestado por meio da linguagem.

Manter esse verso no Hino do Rio Grande do Sul é compactuar com o racismo e com a ideologia excludente da elite escravocrata . Que virtude é essa, cantada em versos, que se ergue como justificativa moral para a violência da escravidão e que transforma a vítima do algoz em culpada por sua condição? 🤓




Manifesto da Aprendizagem Subversiva

O valor intrínseco do aprender  contra a lógica do mercado

    A sociedade capitalista  nos doutrina a conceber a aprendizagem  sob a lógica de mercado, apresentando-a principalmente como um ativo, isto é , um meio para obter um diploma ou para garantir a ascensão profissional. Esta visão que Paulo Freire  criticou como "educação bancária", na qual o saber é um depósito a ser acumulado para uso futuro, acaba por invisibilizar a essência mais profunda: a de aprender como um valor em si mesmo.

   Para ilustrar melhor o que quero dizer, pensemos no ato de ouvir música: Ouvimos as músicas que amamos não para ganhar algo, mas pela experiência estética, pela emoção e pela reflexão que ela desperta. Agora pensemos na amizade, valorizamos um amigo pelo que a relação traz para nossa vida e não apenas pelos favores que ele pode nos fazer.  

    Assim, o processo de aprender é intrinsecamente valioso e independe de ter uma utilidade prática óbvia. Sua motivação  mais pura não emana de recompensas externas, ela não vem de notas, diplomas, elogios ou prêmios, mas brota da curiosidade genuína e da sensação prazerosa de fazer conexões entre ideias.

    Compreender isso é perceber que a aprendizagem não é uma corrida com uma linha de chegada, na qual todos partem do mesmo ponto. Ela é, na verdade, uma jornada contínua e infinita, cujo ponto de partida é único para cada pessoa, carregado por sua bagagem pessoal de histórias e experiências. 

    O valor da aprendizagem  está no próprio ato de aprender. O prêmio é a compreensão em si, a expansão dos horizontes  e a transformação interna que o conhecimento provoca. Quando foi que nos convenceram  de que o prazer de descobrir deveria ser trocado pela obrigação de performar?

    Portanto,  apreciar o processo de aprender como um valor em si mesmo é transformador. Porque você passa a perceber que não para de aprender quando sai da faculdade, o mundo se torna uma sala de aula; os erros e fracassos não são derrotas, são encarados como oportunidades e desafios para aprender e isso aumenta a sua autonomia e resiliência. 

       Por fim, você desenvolve a percepção de que não se trata de acumular informações para um fim externo, mas de cultivar um espírito aberto ou um estado de abertura e admiração contínua pela experiência estética de aprender. Um Self sempre em expansão. 



por Lisiane Vieira Ortiz Martinez


Referência


FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido - Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013.