segunda-feira, 19 de agosto de 2019

O Diferente Não é Problemático. Problemático É o Teu Preconceito.

No grupo de mães do WhatsApp, em Campo Grande, a matéria se espalhou rapidamente e uma delas comentou: "A gente bem que podia se juntar e fazer uma festa para o Arthur né, o que vocês acham?". 
Foi quando a doula Tatiana Marinho, de 39 anos, que possui um buffet em família, começou a organizar o evento para o menino autista de 2 anos de idade, que havia sido rejeitado em um aniversário. "Vamos mostrar que diferente não é problemático".

"Nós temos um grupo chamado Aldeia Materna e alguém colocou o link do G1. Foi quando começamos uma discussão e decidimos fazer uma festa para ele. Minha mãe e irmã são proprietárias do buffet e elas toparam fazer algo por ele. Em seguida, falei com a mãe do Arthur e ela nos contou que ele gostava do Mickey, então toda a decoração será baseada no personagem", afirmou Tatiana.
 
Segundo a doula, a mãe do menino também precisa ser acolhida. "Ela falou que toparia até uma reunião na casa dela. Mas, nós sentimos que essa mãe ficou machucada e precisa ser acolhida, principalmente porque o menino ainda não pode entender o que ocorreu. O que é mais bacana é que teremos inclusão, com outros meninos para brincar. Queremos mostrar que ele é uma criança e pode se divertir como todas as outras", ressaltou.
 
Ao saber da notícia, a mãe do Arthur, Sara Onori, de 22 anos, disse que achou a atitude muito interessante. "Eu, sinceramente, não achei que a repercussão não seria tão grande assim. Por um lado, eu quis expor a situação porque tenho certeza que outras mães passaram por isso e ficaram quietas. Acho que o autismo precisa ser falado, não é um bicho de sete cabeças. As pessoas precisam de informação para não cometer o mesmo erro", ressaltou.
 
Ainda conforme Sara, outras pessoas chegaram até ela e disseram que a mãe que enviou a mensagem, na qual diz que o filho dela é problemático e por isso não será convidado para o aniversário, estaria arrependida. "Não sei se é por conta da repercussão, mas, ela ainda não me procurou e disseram que vai fazer isso quando os ânimos se acalmarem", finalizou
 
Na semana anterior, Sara recebeu a mensagem de WhatsApp. A mãe ressaltou não convidaria o Arthur porque ele é meio problemático, algo que incomodaria outras crianças e ainda disse ao final: "Espero que você me entenda".
 
A mãe do Arthur estava em um grupo e percebeu que outras mãe conversavam sobre a festa. Ao perguntar o que seria, recebeu a mensagem da mulher e ficou tão chocada que nem sequer respondeu: "Ela era minha amiga e tenho certeza que sabia da condição do Arthur, fiquei tão triste com a mensagem que estou até agora sem ação", desabafou na ocasião.
 
Diagnóstico do menino ocorreu em uma consulta com neurologista, há pouco mais de 3 meses
A mãe disse ao G1 que já havia percebido algo no comportamento do filho. "Notei que ele levou mais tempo que as outras crianças para andar e falar...o Arthur também tem fixação com movimentos repetitivos, então ele gosta de acender e apagar a luz, observar o ventilador, ver o movimento das rodas. Ele não é problemático, é sensível e só precisa de um pouco de paciência das pessoas ao redor para se encaixar."

Desde o início, Sara ressalta que buscou ajuda para entender o autismo, algo que ela já havia compartilhado com a mãe que enviou a mensagem. "Depois do que aconteceu eu fui lembrando das coisas e percebi que ela nunca me deu apoio, então, acho que já havia um preconceito aí", lamenta.

Do site Noticias de Rio Grande. 

Por que as diferenças incomodam tanto? As diferenças incomodam porque confrontam as certezas, porque desafiam a zona de conforto do conhecido e do similar. Ocorre que ninguém é, de fato, igual. Cada ser humano é único, com suas próprias características, personalidade, experiências, habilidades e desafios. E é  justamente essa  diversidade que torna a convivência uma experiência tão enriquecedora  para todos.

Como, então, ensinar crianças e  jovens a desenvolver habilidades e atitudes como empatia, solidariedade, respeito e tolerância se os privamos da convivência com aqueles que consideramos diferentes?  A empatia, a solidariedade, o respeito e a tolerância não são qualidades inatas, são competências que precisam ser aprendidas e exercitadas. 

E isso só acontece de verdade através do encontro, do diálogo, da  interação com o outro. A  crítica que se impõe é clara:  ao segregar,  homogeneizar ou evitar o diferente não estamos protegendo ninguém. Estamos, na verdade, empobrecendo o universo emocional e ético das novas gerações, negando-lhes a oportunidade de crescer em humanidade. O verdadeiro aprendizado social começa onde a diferença é reconhecida não como ameaça, mas como um elemento fundamental da  própria identidade coletiva.



por Lisiane Vieira Ortiz Martinez