sexta-feira, 1 de maio de 2026

Trabalhar para Viver e Não Viver para Trabalhar: pelo fim da escala 6X1

     Hoje de manhã, assisti pelo youtube da mídia Ninja à manifestação democrática dos sindicatos e líderanças políticas em São Paulo. O Dia do Trabalhador costuma ser celebrado com discursos críticos e contundentes a favor da dignidade das trabalhadoras e trabalhadores, da valorização do trabalho e contra a exploração da classe.

     A classe dominante inverteu o sentido do trabalho. Aquilo que deveria ser dignidade, autonomia e qualidade de vida passou a exigir cada vez mais tempo, energia e submissão. Jornadas extensas, múltiplos empregos e a constante pressão por produtividade criam uma rotina  em que o descanso se torna um privilégio, e não um direito; é quase uma culpa.  Nesse cenário "viver para trabalhar"  deixa de ser uma metáfora e passa a ser regra.

       Tenhamos em mente que essa dinâmica não é fruto do acaso, ela é a expressão prática do capitalismo que  estrutura a sociedade a partir da exploração do trabalho à custa da saúde física, mental e do tempo do trabalhador. É o modelo que prioriza a acumulação do lucro acima das necessidades das pessoas.   

       A precarização das relações de trabalho, a flexibilização de direitos e a forma de contratação são outra forma reconfigurada de exploração quase invisível, mas bastante intensa. O fim da escala 6 X 1 em discussão no Congresso é a pauta que dialoga diretamente com a qualidade de vida dos trabalhadores.

    É especialmente importante  para as mães trabalhadoras que têm a necessidade de reequilibrar o tempo para família, responsabilidades domésticas e descanso.  Com apenas um dia de folga, torna-se quase impossível conciliar trabalho e cuidado de forma equilibrada, o que impacta tanto o bem-estar da mãe quanto o dos filhos. 

   Situo o meu lugar de fala: atualmente, sou servidora pública do magistério estadual e municipal. Essa condição, embora marcada pela estabilidade relativa em comparação a outras categorias profissionais, não me exime, ao contrário, me convoca a refletir criticamente sobre o cenário das relações de trabalho. 

        A educação pública está inserida neste mesmo sistema, pois é  atravessada por pressões, desvalorização e sobrecarga, o que reforça a necessidade de solidariedade com outras categorias. Nenhuma categoria está isolada, é fundamental reafirmar o sentido coletivo da luta trabalhista porque afinal, somos todos trabalhadores, a fragmentação só interessa à manutenção das desigualdades pelos grupos privilegiados.

        É impossível ignorar, nesse debate, a contradição presente no próprio Congresso Nacional que faz jornada semanal de 3 x 4 (três dias trabalhados e 4 de folga), enquanto milhares de brasileiros estão submetidos semanalmente a 6 dias trabalhados por 1 folga. Essa assimetria escancara o distanciamento entre quem legisla e quem vive na prática,  as consequências das leis.

           Neste Dia do Trabalhador mais do que celebrar, precisamos  lembrar que direitos não são concessões, mas conquistas históricas. Defender o direito de trabalhar para viver e não viver para trabalhar, pelo fim da escala 6x1, é reafirmar a centralidade da dignidade humana frente a um sistema que insiste em nos reduzir ao valor da produção.


Publicado em 01/05/2026 atualizado em 03/05/2026

por Lisiane Vieira Ortiz Martinez



Referência

https://www.youtube.com/watch?v=_7lxQyc0PT8


sábado, 25 de abril de 2026

Opiniões, Fofocas e Urnas: o desafio do eleitor

    O período eleitoral expõe um paradoxo:  é muito importante estar bem informado e, ao mesmo tempo, nunca foi tão arriscado confiar plenamente na informação disponível. Sob a aparência de pluralidade e informação, o eleitor é bombardeado por um fluxo incessante de mentiras, opiniões e narrativas que, longe de ampliar a compreensão, frequentemente manipulam. Diante disso, o maior risco é pensar que se está bem informado quando, na realidade, se está acreditando e reproduzindo versões cuidadosamente construídas da realidade pela mídia.

    Logo, devemos compreender que toda imprensa tem lado, pois segue sua linha editorial que orienta quais fatos são divulgados, quais fontes são ouvidas e como os acontecimentos são interpretados. Essa escolha reflete interesses econômicos, políticos e ideológicos. Também depende de fontes oficiais (governo, instituições e corporações) , de anunciantes  e de  verbas publicitárias para sobreviver. 

      Neste contexto, abre-se espaço para manipulação, que não ocorre de forma explícita, mas muitas vezes  através de estratégias sutis como a omissão de assuntos importantes, seleção parcial de informações, o destaque exagerado a determinados temas, fofocas e disse-me-disse narrados como "fatos" e "análise política".

     É justamente neste cenário de incerteza e influência que se revela não apenas o poder do eleitor, mas também sua responsabilidade. Mais do que um direito garantido, votar é um ato que molda diretamente os rumos da sociedade e define as bases sobre as quais se constrói a democracia.

    O voto é frequentemente tratado como um mero dever protocolar, porém, reduzir esse ato de grande importância para a democracia a uma mera formalidade compromete o próprio  sentido da participação cidadã, portanto, o voto consciente não é apenas uma escolha racional entre propostas que dizem respeito aos interesses de uma categoria. 

    Ele é, antes de tudo, um ato de responsabilidade coletiva, pois suas consequências ultrapassam o âmbito individual e impactam diretamente a vida em sociedade. Além disso, exige do eleitor uma postura crítica diante das informações que consome, implicando a análise delas sob diferentes perspectivas.

    Votar com consciência exige mais do que ler os planos de governos. Exige cruzar informações, observar os movimentos da política, questionar incoerências, pesquisar fatos, o histórico de candidatos, entender as obrigações  que o cargo impõe aos eleitos para o executivo e legislativo.

    Não votar mal é o mínimo; votar bem e com rigor crítico é o que  a democracia proporciona aos cidadãos. É muito importante que nós, eleitores, saibamos que o voto não termina na urna. Ele se transforma em orçamento, em políticas públicas e  melhorias para os cidadãos e para o país, estado ou município. Votar com consciência, portanto, não é apenas escolher quem governa; é decidir se as instituições seguirão servindo ao bem comum ou a interesses privados.


por Lisiane Vieira Ortiz Martinez

  




domingo, 8 de março de 2026

8 de Março: Um Tributo às Mulheres

 Hoje é dia de celebrar. Dia de olhar para o passado e reconhecer a coragem de tantas mulheres que, com suas vozes e passos firmes, abriram caminhos onde antes havia silêncio e invisibilidade. Ser mulher é carregar no peito a força que enfrenta o mundo e a delicadeza que acolhe o outro. É equilibrar sonhos e responsabilidades, é resistir diante das dificuldades e florescer mesmo em terrenos áridos.

Neste 8 de março celebramos cada conquista, cada direito adquirido e cada espaço ocupado. Celebramos as mães, as filhas, as avós, as tias, as amigas, as profissionais, as donas de casa - todas mulheres que, com sua existência, iluminam, desafiam estruturas, quebram silêncios, tornam o mundo mais forte e mais humano.

Meu desejo é que possamos seguir em frente defendendo igualdade, respeito e dignidade para todas nós. Que nenhuma mulher seja silenciada, diminuída ou esquecida. E que possamos honrar a nossa força,  sabedoria e a beleza de ser mulher.

Parabéns a todas nós! Que nossa história continue sendo escrita com coragem, delicadeza, amor e liberdade. E que os homens compreendam que a luta da mulher não é contra eles, que igualdade não é favor, é direito. E que respeito não se concede, se pratica. Todos os dias.


por Lisiane Vieira Ortiz Martinez


sábado, 28 de fevereiro de 2026

O Carnaval e a Estética do Incômodo: Merleau-Ponty e a Liberdade de Criar

O carnaval de 2026 foi marcado pela polêmica que girou em torno da Escola de Samba Acadêmicos de Niterói que levou o enredo "Do alto do mulungu surge a esperança: Lula o operário do Brasil" para Sapucaí. A homenagem ao presidente Luís Inácio Lula da Silva, contudo, foi recebida  com uma onda de ataques políticos e judiciais que merecem ser analisados à luz da defesa da liberdade de expressão e da autonomia criativa de toda agremiação carnavalesca.

Em primeiro lugar, a escola deve ter total autonomia sobre o seu enredo. A Acadêmicos de Niterói, em nota oficial, denunciou as tentativas de "interferência direta na nossa autonomia artística, com pedidos de mudança no samba-enredo, na letra do samba e outras ações que procuraram nos enquadrar e silenciar"

Em uma democracia, o carnaval, como a maior expressão cultural popular, não pode ser alvo de censura prévia. O enredo é o fio condutor de toda obra que será apresentada na Sapucaí, e é quase impossível encontrar uma que não gire em torno da história de alguém.

Ainda bem que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) negou os pedidos para proibir o desfile da escola, pois reconheceu que o enredo é uma manifestação artística e cultural, que, ao retratar a história de alguém ou de um povo, exerce a liberdade de expressão garantida pela Constituição.  

O enredo dos Acadêmicos de Niterói narrou a trajetória de Lula desde a infância no sertão pernambucano até a Presidência da República. Lula representa, sem sombra de dúvida,  uma figura que teve uma vida forjada na dor, na fome e na  resiliência, tornando-se um dos  maiores  líderes políticos do país. Portanto, é alguém que tem biografia , tem uma história linda que merece ser contada através da arte.

A escola também mostrou a transformação social do Brasil,  abordando a luta operária, a fome e os programas sociais que marcaram a época. A reação contrária e as críticas à escola vieram de setores da oposição, que tentaram, sem sucesso, barrar o desfile no Judiciário. Após o desfile, a escola sofreu represálias por parte de opositores. 

Os acadêmicos de Niterói apresentaram uma das imagens mais provocativas ao retratar a família conservadora literalmente enlatada, porém, a potência da alegoria reside justamente na multiplicidade de leituras e interpretações que ela comporta. Vou apresentar uma interpretação da alegoria:

A lata simboliza a proteção e a tentativa de conservar o modelo familiar supostamente intocado e imune às mudanças do tempo. Um ideal que, como produto enlatado, se pretende hermético, padronizado e preservado; sem julgamento se a família tradicional é o modelo correto ou se o modelo está ultrapassado.

O que as pessoas talvez não  tenham entendido é que ao retratar a família dentro de uma lata, não significa que a escola de samba esteja fazendo um ataque à instituição familiar, mas trazendo a ideia  da conservação de sua unidade, de seus valores e de seus princípios. Afinal, latas são usadas para conservar, para proteger conteúdos e para mantê-los íntegros. 

O que percebo com toda a polêmica das interpretações é que há pessoas que tem uma certa dificuldade em lidar com a complexidade e ambiguidade que são inerentes a expressão artística. O carnaval não é um outdoor partidário, nem um manifesto de uma única interpretação. Ele, em sua grandeza, é um espelho multifacetado do Brasil: de suas dores, de suas alegrias e, sobretudo, de sua inegociável liberdade de criar.

Que a lição deixada pelos Acadêmicos de Niterói em 2026 seja a de que numa democracia madura, a arte não precisa pedir licença para existir, não pode ser algemada por discordâncias ideológicas.  Tentar enlatá-la é que deveria, sim, ser a vergonha nacional.


por Lisiane Vieira Ortiz Martinez





Referências

https://www.brasildefato.com.br/2026/02/16/desfile-da-academicos-de-niteroi-em-homenagem-a-lula-tem-bozo-preso-e-temer-roubando-faixa-de-dilma

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/carnaval/2026/noticia/2026/02/16/apos-enredo-sobre-lula-academicos-de-niteroi-se-diz-perseguida-e-defende-apuracao-justa.ghtml

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. Tradução de Carlos Alberto Ribeiro de Moura. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

O Racismo Oculto em um Verso do Hino Gaúcho: A Virtude Que Escraviza

✍️ Publicação Original:
Facebook | 21 de setembro de 2025, 11:56

Por Lisiane Vieira Ortiz Martinez

Amigas e Amigos, eu sou totalmente a favor da retirada da estrofe do Hino do Rio Grande do Sul que diz: "povo que não tem virtude acaba por ser escravo", pois compreendo que se trata de uma expressão racista e que a linguagem nunca é neutra.Ela sempre tem a intenção de comunicar algo.

Neste caso, reflete o projeto político e social da elite gaúcha da época (os estancieiros, proprietários de escravos, de terras e de gado) , que era a construção da identidade do homem gaúcho como homem livre, honrado, bravo e virtuoso em contraposição implícita direta ao "escravo e sem virtude". Quem eram os escravos? Os negros e os indígenas.

Outro ponto que justifico é que a frase naturaliza a escravidão e também inverte a lógica dela, pois sabemos que a escravidão foi uma violência brutal contra as pessoas negras por anos e anos. O problema é que no imaginário social não é questionado, é a violência do escravizador, a agrura do(a) negro(a) passa ser a suposta "falta de virtude". É como se a escravidão fosse um destino natural para os povos "fracos e inferiores", segundo a visão elitista.

Outro argumento a favor da retirada da frase é que ela serve como justificativa simbólica para a dominação, a elite da época ao se autoproclamar virtuosa, legitima seu lugar de poder e a subjugação daqueles que não pertencem e que não fazem parte do seu grupo.

Por fim, compreendo que a manutenção dessa frase racista representa uma ofensa simbólica contra as pessoas negras, pois ouvir, oficialmente, que a escravidão era consequência da falta de virtude de seu povo é profundamente violento e uma forma de racismo estrutural, manifestado por meio da linguagem.

Manter esse verso no Hino do Rio Grande do Sul é compactuar com o racismo e com a ideologia excludente da elite escravocrata . Que virtude é essa, cantada em versos, que se ergue como justificativa moral para a violência da escravidão e que transforma a vítima do algoz em culpada por sua condição? 🤓




Manifesto da Aprendizagem Subversiva

O valor intrínseco do aprender  contra a lógica do mercado

    A sociedade capitalista  nos doutrina a conceber a aprendizagem  sob a lógica de mercado, apresentando-a principalmente como um ativo, isto é , um meio para obter um diploma ou para garantir a ascensão profissional. Esta visão que Paulo Freire  criticou como "educação bancária", na qual o saber é um depósito a ser acumulado para uso futuro, acaba por invisibilizar a essência mais profunda: a de aprender como um valor em si mesmo.

   Para ilustrar melhor o que quero dizer, pensemos no ato de ouvir música: Ouvimos as músicas que amamos não para ganhar algo, mas pela experiência estética, pela emoção e pela reflexão que ela desperta. Agora pensemos na amizade, valorizamos um amigo pelo que a relação traz para nossa vida e não apenas pelos favores que ele pode nos fazer.  

    Assim, o processo de aprender é intrinsecamente valioso e independe de ter uma utilidade prática óbvia. Sua motivação  mais pura não emana de recompensas externas, ela não vem de notas, diplomas, elogios ou prêmios, mas brota da curiosidade genuína e da sensação prazerosa de fazer conexões entre ideias.

    Compreender isso é perceber que a aprendizagem não é uma corrida com uma linha de chegada, na qual todos partem do mesmo ponto. Ela é, na verdade, uma jornada contínua e infinita, cujo ponto de partida é único para cada pessoa, carregado por sua bagagem pessoal de histórias e experiências. 

    O valor da aprendizagem  está no próprio ato de aprender. O prêmio é a compreensão em si, a expansão dos horizontes  e a transformação interna que o conhecimento provoca. Quando foi que nos convenceram  de que o prazer de descobrir deveria ser trocado pela obrigação de performar?

    Portanto,  apreciar o processo de aprender como um valor em si mesmo é transformador. Porque você passa a perceber que não para de aprender quando sai da faculdade, o mundo se torna uma sala de aula; os erros e fracassos não são derrotas, são encarados como oportunidades e desafios para aprender e isso aumenta a sua autonomia e resiliência. 

       Por fim, você desenvolve a percepção de que não se trata de acumular informações para um fim externo, mas de cultivar um espírito aberto ou um estado de abertura e admiração contínua pela experiência estética de aprender. Um Self sempre em expansão. 



por Lisiane Vieira Ortiz Martinez


Referência


FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido - Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013. 

       

 

     

domingo, 14 de setembro de 2025

Democracia e Justiça: A Responsabilização da Elite Golpista

A democracia não diz respeito apenas ao direito de votar e de ser votado; é um pacto social fundado no respeito às instituições, na soberania das leis e na certeza de que ninguém está acima dela. O dia 8 de janeiro de 2023, expôs de forma chocante, até onde pode chegar a combinação tóxica da narrativa de ódio, da mentira e do fanatismo. 

Freud, em sua obra Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921) disse : "As massas nunca tiveram sede da verdade. Elas querem ilusões e não vivem sem elas". E é exatamente essa sede por fantasias que pode explicar a adesão cega de apoiadores ao ex-presidente  e a demonstração da irracionalidade coletiva. 

A violência que explodiu em Brasília no "Dia da Infâmia", como bem denominou a presidente do STF, ministra Rosa Weber, foi diuturnamente cultivada por Jair Bolsonaro, que explorou a ignorância das pessoas. Mas, tão importante quanto lembrar os fatos passados, é se perguntar: O que acontece com quem planeja, financia e incita a violência contra o Estado democrático de direito e não é devidamente responsabilizado?

A resposta é simples e muito perigosa: a impunidade se torna a licença para repetir o crime, o oxigênio para o golpismo.

A verdadeira força de uma democracia não se mede apenas pela solidez de suas instituições em momentos de crise, mas pela sua capacidade de fazer justiça, especialmente quando os acusados ocupam posições de influência, poder e privilégio.

 Portanto, a responsabilização da elite golpista não é  vingança, perseguição política ou caça às bruxas; é  primeiramente sobre prevenção. Uma sociedade que aspira ser justa não pode tolerar que crimes graves  fiquem impunes. É o antídoto contra a repetição da combinação tóxica que buscou subverter a nossa democracia.

Se essa elite golpista não fosse responsabilizada pelos crimes que cometeram, a mensagem  transmitida ao mundo seria: "Há dois tipos de cidadãos brasileiros - os que estão sujeitos às leis e os que podem descumprir as leis sem consequências." Essa ideia é inaceitável porque a impunidade é um incentivo à corrupção e ao crime. As leis funcionam como uma espécie de freio aos impulsos, desencorajando comportamentos danosos e ilegais ao mostrar que todo ato ilícito tem suas consequências.

A responsabilização não deve se restringir aos executores, ela tem que alcançar os mandantes e financiadores, como de fato ocorreu no julgamento do Jair Bolsonaro e da elite golpista no  dia 11 de setembro. A justiça é a guardiã do Estado de Direito; em uma democracia, a lei deve ser aplicada de forma igualitária a todos os cidadãos. Sem distinção de riqueza, status ou poder, todos têm direito ao devido processo legal.

Mas como evitar que crimes assim se repitam? Aqui, é inevitável fazer a seguinte reflexão sobre a perspectiva educacional: Onde estava a educação que deveria ter municiado os cidadãos com pensamento crítico para discernir entre um protesto legítimo e um crime?

Sem retirar a responsabilidade de cada um por seus atos, entendo que a  falta de discernimento  deles não pode ser vista somente do ponto de vista individual, mas também  deve ser compreendida como sintoma de um sistema de educação que, por décadas, neglicenciou a educação política de seus cidadãos, o ensino de valores democráticos e o aprofundamento da análise crítica dos discursos de ódio espalhados no mundo digital. 

Como explicar que adultos nas casas dos 45 ou 50 anos acreditem em narrativas como  " o Brasil vive no comunismo"  ou   "a Terra é plana" ? Essas ideias absurdas são fruto de uma educação que não os ensinou a discernir entre fato e ficção. São saudosos à ditadura ou são cidadãos com tendência de possuir um caráter golpista.

 Para Freud (1921): " O indivíduo que, antes de se juntar à massa, era talvez culto em seu isolamento, torna-se um bárbaro, uma entidade guiada por pulsões quando se junta ao grupo."

 O fato histórico é que no dia 11 de setembro de 2025, o STF agiu com rigor, independência e transparência no julgamento dos arquitetos do golpe  e do seu chefe Jair Bolsonaro.  O Tribunal mostrou ao mundo que aprendeu com erros passados, nos quais as elites escaparam ilesas depois de  cometer crimes contra o Estado. O Supremo Tribunal julgou e condenou o ex-presidente a 27 anos e 3 meses por vários crimes.

Portanto, o Brasil aprovou no Teste de Maturidade Democrática, pois entendeu que a impunidade serve como oxigênio para o golpismo. A democracia exige que todos os cidadãos respondam  igualmente perante a lei por seus atos e sejam culpabilizados na medida de sua responsabilidade.


Por Lisiane Vieira Ortiz Martinez



Referências

https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/8-de-janeiro-saiba-o-que-aconteceu-no-stf-nesses-seis-meses-seguintes-aos-ataques-golpistas

https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2025-09/por-4-1-stf-condena-bolsonaro-e-mais-sete-pela-trama-golpista

https://www.youtube.com/watch?v=vz90yk-R6FY&t=10s