A democracia não diz respeito apenas ao direito de votar e de ser votado; é um pacto social fundado no respeito às instituições, na soberania das leis e na certeza de que ninguém está acima dela. O dia 8 de janeiro de 2023, expôs de forma chocante, até onde pode chegar a combinação tóxica da narrativa de ódio, da mentira e do fanatismo.
Freud, em sua obra Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921) disse : "As massas nunca tiveram sede da verdade. Elas querem ilusões e não vivem sem elas". E é exatamente essa sede por fantasias que pode explicar a adesão cega de apoiadores ao ex-presidente e a demonstração da irracionalidade coletiva.
A violência que explodiu em Brasília no "Dia da Infâmia", como bem denominou a presidente do STF, ministra Rosa Weber, foi diuturnamente cultivada por Jair Bolsonaro, que explorou a ignorância das pessoas. Mas, tão importante quanto lembrar os fatos passados, é se perguntar: O que acontece com quem planeja, financia e incita a violência contra o Estado democrático de direito e não é devidamente responsabilizado?
A resposta é simples e muito perigosa: a impunidade se torna a licença para repetir o crime, o oxigênio para o golpismo.
A verdadeira força de uma democracia não se mede apenas pela solidez de suas instituições em momentos de crise, mas pela sua capacidade de fazer justiça, especialmente quando os acusados ocupam posições de influência, poder e privilégio.
Portanto, a responsabilização da elite golpista não é vingança, perseguição política ou caça às bruxas; é primeiramente sobre prevenção. Uma sociedade que aspira ser justa não pode tolerar que crimes graves fiquem impunes. É o antídoto contra a repetição da combinação tóxica que buscou subverter a nossa democracia.
Se essa elite golpista não fosse responsabilizada pelos crimes que cometeram, a mensagem transmitida ao mundo seria: "Há dois tipos de cidadãos brasileiros - os que estão sujeitos às leis e os que podem descumprir as leis sem consequências." Essa ideia é inaceitável porque a impunidade é um incentivo à corrupção e ao crime. As leis funcionam como uma espécie de freio aos impulsos, desencorajando comportamentos danosos e ilegais ao mostrar que todo ato ilícito tem suas consequências.
A responsabilização não deve se restringir aos executores, ela tem que alcançar os mandantes e financiadores, como de fato ocorreu no julgamento do Jair Bolsonaro e da elite golpista no dia 11 de setembro. A justiça é a guardiã do Estado de Direito; em uma democracia, a lei deve ser aplicada de forma igualitária a todos os cidadãos. Sem distinção de riqueza, status ou poder, todos têm direito ao devido processo legal.
Mas como evitar que crimes assim se repitam? Aqui, é inevitável fazer a seguinte reflexão sobre a perspectiva educacional: Onde estava a educação que deveria ter municiado os cidadãos com pensamento crítico para discernir entre um protesto legítimo e um crime?
Sem retirar a responsabilidade de cada um por seus atos, entendo que a falta de discernimento deles não pode ser vista somente do ponto de vista individual, mas também deve ser compreendida como sintoma de um sistema de educação que, por décadas, neglicenciou a educação política de seus cidadãos, o ensino de valores democráticos e o aprofundamento da análise crítica dos discursos de ódio espalhados no mundo digital.
Como explicar que adultos nas casas dos 45 ou 50 anos acreditem em narrativas como " o Brasil vive no comunismo" ou "a Terra é plana" ? Essas ideias absurdas são fruto de uma educação que não os ensinou a discernir entre fato e ficção. São saudosos à ditadura ou são cidadãos com tendência de possuir um caráter golpista.
Para Freud (1921): " O indivíduo que, antes de se juntar à massa, era talvez culto em seu isolamento, torna-se um bárbaro, uma entidade guiada por pulsões quando se junta ao grupo."
O fato histórico é que no dia 11 de setembro de 2025, o STF agiu com rigor, independência e transparência no julgamento dos arquitetos do golpe e do seu chefe Jair Bolsonaro. O Tribunal mostrou ao mundo que aprendeu com erros passados, nos quais as elites escaparam ilesas depois de cometer crimes contra o Estado. O Supremo Tribunal julgou e condenou o ex-presidente a 27 anos e 3 meses por vários crimes.
Portanto, o Brasil aprovou no Teste de Maturidade Democrática, pois entendeu que a impunidade serve como oxigênio para o golpismo. A democracia exige que todos os cidadãos respondam igualmente perante a lei por seus atos e sejam culpabilizados na medida de sua responsabilidade.
Por Lisiane Vieira Ortiz Martinez
Referências
https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/8-de-janeiro-saiba-o-que-aconteceu-no-stf-nesses-seis-meses-seguintes-aos-ataques-golpistas
https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2025-09/por-4-1-stf-condena-bolsonaro-e-mais-sete-pela-trama-golpista
https://www.youtube.com/watch?v=vz90yk-R6FY&t=10s
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