O carnaval de 2026 foi marcado pela polêmica que girou em torno da Escola de Samba Acadêmicos de Niterói que levou o enredo "Do alto do mulungu surge a esperança: Lula o operário do Brasil" para Sapucaí. A homenagem ao presidente Luís Inácio Lula da Silva, contudo, foi recebida com uma onda de ataques políticos e judiciais que merecem ser analisados à luz da defesa da liberdade de expressão e da autonomia criativa de toda agremiação carnavalesca.
Em primeiro lugar, a escola deve ter total autonomia sobre o seu enredo. A Acadêmicos de Niterói, em nota oficial, denunciou as tentativas de "interferência direta na nossa autonomia artística, com pedidos de mudança no samba-enredo, na letra do samba e outras ações que procuraram nos enquadrar e silenciar"
Em uma democracia, o carnaval, como a maior expressão cultural popular, não pode ser alvo de censura prévia. O enredo é o fio condutor de toda obra que será apresentada na Sapucaí, e é quase impossível encontrar uma que não gire em torno da história de alguém.
Ainda bem que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) negou os pedidos para proibir o desfile da escola, pois reconheceu que o enredo é uma manifestação artística e cultural, que, ao retratar a história de alguém ou de um povo, exerce a liberdade de expressão garantida pela Constituição.
O enredo dos Acadêmicos de Niterói narrou a trajetória de Lula desde a infância no sertão pernambucano até a Presidência da República. Lula representa, sem sombra de dúvida, uma figura que teve uma vida forjada na dor, na fome e na resiliência, tornando-se um dos maiores líderes políticos do país. Portanto, é alguém que tem biografia , tem uma história linda que merece ser contada através da arte.
A escola também mostrou a transformação social do Brasil, abordando a luta operária, a fome e os programas sociais que marcaram a época. A reação contrária e as críticas à escola vieram de setores da oposição, que tentaram, sem sucesso, barrar o desfile no Judiciário. Após o desfile, a escola sofreu represálias por parte de opositores.
Os acadêmicos de Niterói apresentaram uma das imagens mais provocativas ao retratar a família conservadora literalmente enlatada, porém, a potência da alegoria reside justamente na multiplicidade de leituras e interpretações que ela comporta. Vou apresentar uma interpretação da alegoria:
A lata simboliza a proteção e a tentativa de conservar o modelo familiar supostamente intocado e imune às mudanças do tempo. Um ideal que, como produto enlatado, se pretende hermético, padronizado e preservado; sem julgamento se a família tradicional é o modelo correto ou se o modelo está ultrapassado.
O que as pessoas talvez não tenham entendido é que ao retratar a família dentro de uma lata, não significa que a escola de samba esteja fazendo um ataque à instituição familiar, mas trazendo a ideia da conservação de sua unidade, de seus valores e de seus princípios. Afinal, latas são usadas para conservar, para proteger conteúdos e para mantê-los íntegros.
O que percebo com toda a polêmica das interpretações é que há pessoas que tem uma certa dificuldade em lidar com a complexidade e ambiguidade que são inerentes a expressão artística. O carnaval não é um outdoor partidário, nem um manifesto de uma única interpretação. Ele, em sua grandeza, é um espelho multifacetado do Brasil: de suas dores, de suas alegrias e, sobretudo, de sua inegociável liberdade de criar.
Que a lição deixada pelos Acadêmicos de Niterói em 2026 seja a de que numa democracia madura, a arte não precisa pedir licença para existir, não pode ser algemada por discordâncias ideológicas. Tentar enlatá-la é que deveria, sim, ser a vergonha nacional.
por Lisiane Vieira Ortiz Martinez
Referências
https://www.brasildefato.com.br/2026/02/16/desfile-da-academicos-de-niteroi-em-homenagem-a-lula-tem-bozo-preso-e-temer-roubando-faixa-de-dilma
https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/carnaval/2026/noticia/2026/02/16/apos-enredo-sobre-lula-academicos-de-niteroi-se-diz-perseguida-e-defende-apuracao-justa.ghtml
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. Tradução de Carlos Alberto Ribeiro de Moura. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
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