quinta-feira, 2 de julho de 2026

Esquerda e Direita: O Paradoxo da Liberdade e o Imperativo Ético no Abismo Social

   Por que o destino de uma criança não pode ser  determinado pela pobreza de sua origem? 

    Na política brasileira, os termos esquerda e direita representam diferentes formas de compreender a sociedade e de propor soluções para os problemas do país. Embora existam outras correntes dentro de cada espectro ideológico, algumas características específicas ajudam a diferenciá-las.

      A esquerda costuma defender maior atuação do Estado na economia, nas políticas, na proteção social aos mais pobres, na redução das desigualdades, na ampliação do acesso à educação, à saúde e a outros direitos sociais. Também valorizam pautas relacionadas à inclusão, ao antirracismo e à valorização de grupos historicamente marginalizados.

      A visão de economia e sociedade da esquerda baseia-se no princípio  de que o mercado sozinho não é capaz de garantir bem-estar social para todos  e frequentemente aprofunda as desigualdades. A esquerda busca o bem-estar coletivo para todos. Por isso, a intervenção do Estado é considerada fundamental para equilibrar o jogo social.

    A direita, por sua vez, defende uma menor intervenção do Estado  na economia, valorizando a iniciativa privada e a liberdade econômica. Seus apoiadores defendem que a redução da burocracia e de impostos pode estimular o crescimento econômico e o aumento do emprego. Além da defesa da liberdade econômica, uma parcela significativa dos apoiadores de direita adota posição conservadora nos costumes.

    Há, contudo, uma contradição nessa composição da direita brasileira, visto que, ao mesmo tempo que se clama pela liberdade absoluta do indivíduo no mercado econômico, busca-se a tutela do Estado sobre os costumes e as escolhas privadas. Se a liberdade é o valor supremo, por que ela vale para o dinheiro, mas não vale para o corpo ou para a cultura?

   Defender uma maior atuação do Estado na economia e a garantia de direitos sociais coletivos é, fundamentalmente, um imperativo ético.  Essa ética nos convida a calçar os sapatos do outro e a compreender que o ponto de partida das pessoas na sociedade não é o mesmo, mas sim diverso. 

     Em um país marcado por profundas desigualdades históricas, ignorar que milhares de cidadãos nascem em condições sociais precárias, sem acesso básico à alimentação adequada, à moradia, ao saneamento, é falhar no dever humano de exercer a empatia e a justiça social

    O respeito ao outro não se resume à convivência pacífica ou à cordialidade no dia a dia; exige o reconhecimento da dignidade intrínseca de cada pessoa. Quando a esquerda defende que saúde e educação não devem ser tratadas como mercadorias acessíveis apenas a quem pode pagar, mas sim como direitos fundamentais, ela afirma que a vida dos moradores das periferias tem o mesmo valor que a de quem nasceu em um contexto privilegiado.

    Logo, a intervenção do Estado para reduzir as desigualdades sociais não é mera decisão técnica; é a materialização do pacto ético que legitima a própria existência do contrato social, uma vez que um Estado que falha em proteger seus cidadãos mais vulneráveis abdica de sua autoridade moral e se reduz a um mero aparato de manutenção de privilégios.

     Ademais, perpetuar a omissão estatal diante do abismo social brasileiro significa chancelar uma injustiça intergeracional, em que o destino do indivíduo é determinado estritamente pelo CEP e pela renda de seus pais. Sem políticas públicas redistributivas e emancipatórias, a meritocracia torna-se uma falácia retórica e a pobreza deixa de ser uma condição temporária para se transformar em uma herança hereditária.

      Portanto, lutar por um Estado indutor de políticas públicas redistributivas não é apenas um compromisso com o presente, mas o único caminho viável para romper o ciclo histórico de exclusão e garantir que o futuro de uma criança não seja determinado pela pobreza de sua origem.


por Lisiane Vieira Ortiz Martinez



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