Este texto é um relato da minha percepção
diante da pandemia do coronavírus. Pretende, única e essencialmente expor
algumas das ponderações que fiz durante o período de isolamento.
Que lição o COVID 19 tem ensinado? Como está nosso comportamento
individual e o comportamento coletivo? Que valores são revistos, enquanto
estamos voltados para nós mesmos? Quais falhas ficaram evidentes nessa crise?
Como será a vida depois da pandemia?
Lembro que quando a doença começou,
parecia apenas um problema local chinês. Vi pela telinha um cenário semelhante a do
filme Epidemia (1995), médicos, enfermeiros e funcionários da limpeza
em hospitais, ficam irreconhecíveis devido aos equipamentos de proteção
individual contra doenças infecto-contagiosa e pacientes lutando pela vida . Ao
mesmo tempo, as ruas das cidades esvaziadas, pois a orientação médica para
frear a propagação do vírus era e ainda é o isolamento social. Passado alguns
meses desde que surgiu o primeiro caso, é preciso reconhecer o bom exemplo do povo chinês em
seguir o protocolo sanitário orientado pelos especialistas.
Conheci os rostos das autoridades da OMS
(Organização Mundial da Saúde) que, diariamente, passaram a prestar informações
sobre o avanço da doença no mundo, eles emitiram o alerta da doença em dezembro
do ano passado. O primeiro óbito de um paciente chinês ocorreu no dia 9 de
janeiro, esse dado me marcou, pois é o dia do aniversário da minha filha
caçula.
No final do mês de janeiro, a OMS declarou
emergência de saúde pública internacional, devido o surgimento da doença em
outros países. No Brasil o vírus foi
importado com a chegada de um homem que voltou da Europa. Desde então,
especialistas em saúde, infectologistas, pesquisadores passaram a disseminar informação
e orientar a população sobre as medidas sanitárias que deveríamos adotar, como
lavar bem as mãos com água e sabão.
Contudo, até o dia 11 de março, minha vida permanecia com a mesma
rotina. Lembro que cheguei à noite da escola e assisti no telejornal que
noticiava a declaração do diretor geral da OMS, Tedros Adhanon, que elevou o
estado de contaminação à pandemia Covid-19, doença causada pelo coronavírus
(Sars-Cov-2).
Na manhã seguinte, expressei minha
preocupação à direção da minha escola sobre a importância de orientar os alunos
quanto à prevenção do contágio. Tive a oportunidade de conversar com os alunos
daquele turno sobre a situação. Fiz mudanças no meu planejamento de atividades
e implementei-as, imediatamente, sendo que a primeira delas foi irmos para o
banheiro da escola para lavar as mãos da forma correta. O decreto estadual e
municipal suspendeu as aulas a partir do dia 19 de março. A partir daí, a
mudança foi efetiva. O isolamento social passou a ser a regra em todo país. A
hastag #FicaemCasa inundou as redes sociais e a tecnologia possibilitou que nos reinventássemos.
A experiência com o COVID-19 tem ensinado:
a) somos habitantes do mesmo planeta,
nesse sentido, constata-se que o contágio não ficou restrito a um único país,
mas ultrapassou as fronteiras; Em pensamento visualizo um quadro que empurra o
ser humano para o centro do planeta e trás uma questão: como anda esse
relacionamento? O ser humano precisa perceber que está inserido no planeta, que
faz parte do meio ambiente e que por estar inserido nesse meio ambiente, interage
individualmente com ele. b) a
condição humana é frágil, pois o vírus é um microorganismo pequeno e simples e
tem o poder de adoecer o homem até a morte. A condição humana e a sua
fragilidade, iguala todos nós, não diferencia etnia, gênero ou condição social.
c) a luta pela sobrevivência e pela
vida precede o direito à liberdade, nesse sentido cito como exemplo, a
evidência da atitude de nos prendermos conscientemente em nossas casas,
sozinhos ou acompanhados.
d) os idosos precisam de cuidados, assim
como as crianças.
e) responsabilidade dos cidadãos perante a
pandemia, é individual e coletiva ao mesmo tempo, pois as consequências não
atingem somente uma pessoa, mas é extensiva ao grupo.
f) que há uma mudança no mundo sob diversos
aspectos e o mais pungente é o econômico.
Na luta contra o coronavírus, todos os
especialistas em saúde afirmam que estão descobrindo a dinâmica da doença, todavia,
já sabem que o vírus é transmitido pelas gotículas do espirro e da tosse, pelo
contato com superfícies contaminadas. Ainda não há vacina, também não há
medicamento específico para tratar a doença. Por enquanto, o medicamento mais
eficaz é ficar em casa e adotar práticas de higiene e limpeza dos objetos e
superfícies com mais freqüência, assim como, quanto aos cuidados pessoais, na
família e na comunidade, pois são hábitos de prevenção que devem ser adotados
por todos. Aqui no Sul, onde moro, temos a cultura da roda de chimarrão, porém
agora, é cada um com seu próprio chimarrão.
O isolamento colocou-nos dentro de casa, tive
e ainda tenho a impressão que o tempo modificou seu timing, tenho a impressão que o tempo desacelerou. O isolamento
trouxe a oportunidade para revisitar em nós mesmos, criticamente, os valores éticos da
solidariedade, da empatia, do cuidado de si e do outro, do cuidado com o meio
ambiente. Assisti muitas ações solidárias, inspiradoras, comprometidas com a
causa de tornar esse mundo um pouco melhor!
O isolamento mostrou que há muitas pessoas
que precisam de ajuda, mostrou as falhas de um sistema econômico que amplia e mantém
as desigualdades sociais e problemas estruturais como a falta de saneamento básico
em muitas localidades das cidades. O coronavírus obrigou governantes a pensarem
no SUS e a fortalecê-lo, mas ainda falta muitas ações nesse sentido.
Por
fim, a última indagação de como será a vida depois da pandemia? Essa só poderá
ser respondida no futuro.
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