Assim como duas árvores jamais crescem da mesma forma, mesmo sob o mesmo céu, cada ser humano se desenvolve em sua própria direção, escrevendo uma história única nas raízes desse mundo.
O Filósofo explora como a experiência do outro e a interação com o mundo humano, moldam nossa própria percepção e compreensão da realidade. Para ele, a experiência com o Outro não é apenas a percepção de um corpo físico, mas sim a compreensão de sua consciência e intencionalidade.
Estou lançado em uma natureza, e a natureza não aparece somente fora de mim, nos objetos sem história, ela é visível no centro da subjetividade. ( MERLEAU-PONTY , 1999, p. 459)
A frase de Merleau-Ponty provoca uma reflexão sobre a nossa relação com a natureza e como a percebemos. Ele nos diz que a natureza não está separada de nós, como um objeto que observamos de fora. Ao contrário, a natureza está presente em nós, no centro de nossa subjetividade.
É uma conexão profunda e pessoal de cada um de nós, pois cada um percebe a natureza de maneira diferente, de acordo com nossos princípios, nossas experiências, nossos valores, nossa cultura. Não somos seres isolados, mas sim seres que se relacionam com o mundo ao redor.
Assim como a natureza penetra até no centro de minha vida pessoal e entrelaça-se a ela, os comportamentos também descem na natureza e depositam-se nela sob a forma de um mundo cultural. (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 461)
O Filósofo demonstra a intrínseca relação entre o ser humano e a natureza, e como essa interação molda o mundo que nos cerca. Nos diz que a natureza é parte integrante de nossa existência e experiência. Nosso comportamento, por sua vez, é uma forma de expressão dessa relação com a natureza, pois ao agirmos no mundo deixamos nossa marca na natureza, transformando-a e sendo transformados por ela.
O corpo de outrem, assim como meu próprio corpo, não é habitado, ele é objeto diante da consciência que o pensa ou o constitui, os homens e eu mesmo enquanto ser empírico somos apenas mecanismos que se movem por molas, o verdadeiro sujeito é sem segundo sujeito, esta consciência que se esconderia em um pedaço de carne sangrenta é a mais absurda das qualidades ocultas, e minha consciência, sendo coextensiva àquilo que pode ser para mim, correlativa ao sistema inteiro da experiência, não pode encontrar aqui uma outra consciência que no mesmo instante faria aparecer no mundo o fundo reservado, desconhecido por mim, de seus próprios fenômenos. (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 464)
O autor destaca que o corpo do outro, assim como o nosso próprio corpo pode ser visto como um objeto, algo que está diante da consciência que o pensa. Porém, ele também adverte que reduzir o outro a um mero mecanismo movido por molas, é ignorar a sua dimensão de sujeito, de consciência que habita aquele corpo. Para ele, a consciência não é uma entidade separada do corpo, mas sim uma forma de ser no mundo.
Se, para mim que reflito na percepção, o sujeito que percebe aparece provido de uma montagem primordial em relação ao mundo, arrastando atrás de si esta coisa corporal sem a qual para ele não haveria outras coisas, por que os outros corpos que percebo não seriam, reciprocamente, habitados por consciências? Se minha consciência tem um corpo, por que os outros corpos não "teriam" consciências? (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 466)
De acordo com o Filósofo, a experiência subjetiva não pode ser dissociada da materialidade corpórea. O corpo é, portanto, o lugar a partir do qual o mundo se organiza para o sujeito. Sem o corpo não haveria acesso ao mundo, pois é através dele que a consciência se manifesta e se situa no espaço e no tempo.
Para Merleau-Ponty, a percepção do outro não é uma inferência intelectual, mas uma experiência direta. Quando vemos outro corpo em movimento, especialmente em ações intencionais, percebemos nele uma expressão de consciência. Assim, a existência de outras consciências não é algo que precisamos deduzir, mas algo que experimentamos diretamente na interação com os outros.
Em particular, existe um objeto cultural que vai desempenhar um papel essencial na percepção de outrem: é a linguagem. Na experiência do diálogo, constitui-se um terreno comum entre outrem e mim, meu pensamento e o seu formam um só tecido, meus ditos e aqueles do interlocutor são reclamados pelo estado da discussão, eles se inserem em uma operação comum da qual nenhum de nós é o criador.(MERLEAU-PONTY, 1999, p. 471)
A linguagem não é apenas um instrumento de comunicação, mas o meio pelo qual a intersubjetividade se concretiza. Através dela podemos acessar o mundo interior do outro, suas ideias, sentimentos e experiências. O Filósofo Merleau-Ponty destaca a linguagem como uma forma de ação, pois ao falarmos agimos sobre o mundo e sobre o outro, e somos, por sua vez, afetados pelas palavras do outro.
No diálogo, o pensamento do eu e do outro se entrelaçam, pois há uma espécie de compartilhamento do mesmo mundo, mas que é experimentado de maneira única por cada um. A intersubjetividade transcende os indivíduos e não é controlada por nenhum dos interlocutores. Desse modo, a linguagem não apenas nos permite comunicar, mas também nos constitui como seres sociais, éticos, capazes de reconhecer e respeitar a alteridade do outro.
Percebo outrem enquanto comportamento , por exemplo, percebo o luto ou a cólera de outrem em sua conduta, em seu rosto e em suas mãos, sem nenhum empréstimo a uma experiência interna do sofrimento ou da cólera e porque luto e cólera são variações do ser no mundo, indivisas entre o corpo e a consciência, e que se põem tanto na conduta de outrem, visível em seu corpo fenomenal, quanto em minha própria conduta tal como ela se oferece a mim. O luto de outrem e sua cólera nunca têm exatamente o mesmo sentido para ele e para mim. E, se enfim nós fazemos algum projeto comum não é um projeto único, e ele não se oferece sob os mesmos aspectos pra mim e para Paulo, nós não nos atemos a ele um tanto quanto o outro, nem, em todo caso, da mesma maneira, e isso pelo fato de que Paulo é Paulo e eu sou eu. (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 473)
A partir de uma perspectiva fenomenológica, o autor aborda a percepção do outro, destacando nossa interpretação sobre emoções como o luto e a cólera no comportamento alheio, sem necessariamente recorrer a uma experiência interna própria desses estados emocionais.
Segundo ele, essas emoções são manifestações do ser no mundo, inseparáveis do corpo e da consciência e que se expressam por meio dos corpos do eu e do outro. No entanto, o sentido dessas emoções nunca é exatamente o mesmo para ambos os corpos, pois cada indivíduo vivencia e interpreta o mundo de maneira única.
Isso porque cada um de nós é singular, com uma história, uma consciência e um corpo próprio que modela nossa experiência do mundo, Paulo é Paulo e eu sou eu - essa diferença é fundamental para compreendermos que somos únicos e nos tornamos únicos.
A importância dessas diferenças reside no reconhecimento de que a subjetividade é inerente à condição humana. Não podemos reduzir a experiência do outro à nossa própria experiência, nem podemos presumir que entendemos completamente o que o outro sente ou vive, pois seria uma hipocrisia. A empatia, neste sentido, não é sobre projetar nossas próprias experiências no outro, mas sobre reconhecer e respeitar a diversidade e a singularidade da experiência do outro.
E nós, como lidamos com as diferenças em nossas relações? Em vez de buscar uma uniformidade na maneira de ser das pessoas, podemos abraçar as diferenças de perspectivas e experiências como algo enriquecedor.
As diferenças não são obstáculos, mas oportunidades para ampliar nossa compreensão do mundo e de nós mesmos, pois elas nos lembram que embora possamos compartilhar projetos, emoções e experiências com os outros, cada um de nós permanece único, com uma maneira própria de ser e de interagir. Essa singularidade é que torna a convivência tão complexa e ao mesmo tempo tão fascinante.
Por Lisiane Vieira Ortiz Martinez
Referência
Merleau-Ponty, Maurice, (1908-1961) - Fenomenologia da Percepção [tradução Carlos Alberto Ribeiro de Moura] - 2 ed - São Paulo: Martins Fontes, 1999.
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