O valor intrínseco do aprender contra a lógica do mercado
A sociedade capitalista nos doutrina a conceber a aprendizagem sob a lógica de mercado, apresentando-a principalmente como um ativo, isto é , um meio para obter um diploma ou para garantir a ascensão profissional. Esta visão que Paulo Freire criticou como "educação bancária", na qual o saber é um depósito a ser acumulado para uso futuro, acaba por invisibilizar a essência mais profunda: a de aprender como um valor em si mesmo.
Para ilustrar melhor o que quero dizer, pensemos no ato de ouvir música: Ouvimos as músicas que amamos não para ganhar algo, mas pela experiência estética, pela emoção e pela reflexão que ela desperta. Agora pensemos na amizade, valorizamos um amigo pelo que a relação traz para nossa vida e não apenas pelos favores que ele pode nos fazer.
Assim, o processo de aprender é intrinsecamente valioso e independe de ter uma utilidade prática óbvia. Sua motivação mais pura não emana de recompensas externas, ela não vem de notas, diplomas, elogios ou prêmios, mas brota da curiosidade genuína e da sensação prazerosa de fazer conexões entre ideias.
Compreender isso é perceber que a aprendizagem não é uma corrida com uma linha de chegada, na qual todos partem do mesmo ponto. Ela é, na verdade, uma jornada contínua e infinita, cujo ponto de partida é único para cada pessoa, carregado por sua bagagem pessoal de histórias e experiências.
O valor da aprendizagem está no próprio ato de aprender. O prêmio é a compreensão em si, a expansão dos horizontes e a transformação interna que o conhecimento provoca. Quando foi que nos convenceram de que o prazer de descobrir deveria ser trocado pela obrigação de performar?
Portanto, apreciar o processo de aprender como um valor em si mesmo é transformador. Porque você passa a perceber que não para de aprender quando sai da faculdade, o mundo se torna uma sala de aula; os erros e fracassos não são derrotas, são encarados como oportunidades e desafios para aprender e isso aumenta a sua autonomia e resiliência.
Por fim, você desenvolve a percepção de que não se trata de acumular informações para um fim externo, mas de cultivar um espírito aberto ou um estado de abertura e admiração contínua pela experiência estética de aprender. Um Self sempre em expansão.
por Lisiane Vieira Ortiz Martinez
Referência
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido - Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013.
Ótimo texto!!
ResponderExcluirGratidão minha querida.
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