domingo, 11 de junho de 2017

A velha narrativa do racismo.

Por Felipe da Silva Freitas
Pesquisador de Criminologia da UEFS
Justificando - Carta Capital

O título original deste texto é: O racismo que escapole no discurso politicamente correto do ministro Barroso

Na última quarta-feira  (07) o ministro Roberto Barroso compareceu à cerimônia de aposição do retrato do ex-presidente do STF, Joaquim Barbosa,e, ao saudá-lo, afirmou que ele é um "negro de primeira linha", com doutorado em Paris,  a quem tinha tido a honra de receber na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Segundo os presentes, o ministro Joaquim Barbosa deixou transparecer no seu semblante a irritação e o caso foi parar na imprensa  provocando uma retratação no dia seguinte.

Na abertura da sessão plenária do STF de 08 de junho , o ministro Luis Roberto Barroso desculpou-se pelo ocorrido, afirmou que a expressão "primeira linha" referia-se à palavra intelectual, e não à palavra negro, e disse que se retratava diante de aqueles que eventualmente tenham se sentido ofendidos. O caso pareceu resolvido.

Contudo,  continua sendo oportuno pensar, mesmo depois das desculpas apresentadas, sobre o que significa a frase do  ministro Barroso e refletir sobre como sua afirmação é elucidativa de como funciona o " racismo à brasileira." (grifo meu)

"Temos aprendido dia a dia no Brasil que  não basta interditar trajetórias negras e inviabilizar sua presença na cena pública". O repertório do racismo nacional também  se especializou em marcar com categorias raciais para sublinhar o aspecto desconforme destes corpos negros no mundo branco. Ainda que por meio de elogios, aparentemente marcados de boa intenção, se multipliquem frases sobre a "menina que é negra, mas é bonita"; "moreno, mas muito inteligente"; "escuro, porém extremamente honesto".

Quando não há como evitar que negros circulem, ainda que minoritariamente, em espaços de poder, riqueza e prestígio, são acionados processos para relembrar que negros são a subclasse do mundo e que, em função disso, só podem acessar os lugares periféricos da história.

Quando se reconhece o talento negro,  isso sempre vem acompanhado de uma conjunção adversativa, pronta a enunciar que aquele talento é surpreendente, ou seja, não esperado de "pessoas de cor".

Certamente a fala do ministro Barroso será defendida a partir do discurso de que ele é um estudioso das ações afirmativas: colaborou com pautas da comunidade negra e até que ele tem amigos negros que frequentam sua casa e gozam de sua confiança. Mas, o racismo se retroalimenta justamente desta contradição: convive-se com negros sem que isso rompa com os pactos e privilégios típicos de uma sociedade construída a partir de modelos de desigualdade e violência.

Certamente Barroso pretendeu ser gentil e elogioso com seu ex-colega de tribunal. Mas a hierarquia do racismo reside justamente na possibilidade de, consciente e inconscientemente, reforçar estigmas e estereótipos,  alimentar-se deles para criar desigualdades, e, quando a injustiça racial é denunciada, rapidamente poder afirmar que foi brincadeira, que foi um mal-entendido, que foram os negros que entenderam  errado e que não era o objetivo ofender. É o velho  ditado que dá o tapa e esconde a mão.

O elogio desastrado de Barroso a Joaquim revela mais do que aquilo que enxergamos num primeiro momento. Mais do que uma gafe, como registrou a imprensa, ou mais do que uma palavra infeliz - como anotou o próprio Ministro - a segmentação dos negros entre os de primeira e os de segunda é uma velha narrativa pela qual o Brasil expressa seu incontornável desconforto com negros e negras que aparecem e brilham demais.


Felipe da Silva Freitas doutorando em direito pela Universidade de Brasília e membro de Grupo de Pesquisa em Criminologia da Universidade Estadual de Feira de Santana.


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